CÃO
Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!
Alexandre O'Neill, Poesias Completas
9 Comments:
ehehhe, já conhecia este poema e acontece-me sempre o mesmo, rio-me ao lê-lo e acho uma maravilha.) Muito bonita a foto;) beijos*****
"Cão como nós", afinal... rss
Beijos
poema sempre bom de reler - adorei foto de cão-traste!
bj carlos p f
Passando rapidinho pra deixar um beijo, que ainda não estou boa.
Na 100ª releitura sempre há O'Neill a descobrir.
Imagem bem agradável, adequada.
Bjos.JP-
*
Gosto deste humor poético de O'Neill
Fantástico!
O O'Neil deixou-me sem palavras e a foto ajudou à festa! Fica o meu abraço.
Toda la noche en el huerto
Mis ojos, como dos perros
Gacela del recuerdo del amor, Federico García Lorca
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